Quando o câncer aparece na vida de uma pessoa idosa, o diagnóstico traz consigo uma série de perguntas que vão além da doença em si: o organismo vai aguentar o tratamento? Como ficam as outras condições de saúde que já existiam? Quem vai coordenar todos esses cuidados?
É para responder a essas perguntas — e a muitas outras — que existe a oncogeriatria.
A oncogeriatria é uma área médica que une oncologia e geriatria para oferecer ao paciente idoso com câncer um cuidado completo, seguro e personalizado.
O envelhecimento e o câncer: uma relação inevitável
O câncer é, em grande parte, uma doença do envelhecimento. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que a incidência de tumores malignos aumenta significativamente a partir dos 60 anos. Estima-se que mais da metade de todos os diagnósticos de câncer no Brasil ocorra em pessoas com 60 anos ou mais.
Isso acontece porque, ao longo das décadas, as células acumulam mutações genéticas e o sistema imunológico perde parte da sua capacidade de identificar e eliminar células anômalas. O resultado é uma maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de tumores.
Ao mesmo tempo, a população brasileira está envelhecendo rapidamente. Em 2050, projeta-se que cerca de 30% dos brasileiros terão mais de 60 anos. Isso significa que o número de pacientes idosos com câncer vai crescer muito nas próximas décadas — e a medicina precisa estar preparada para atendê-los de forma adequada.
O que faz o médico com atuação em oncogeriatria?
É um médico com enfoque tanto em oncologia (o estudo e tratamento do câncer) quanto nos aspectos clínicos do envelhecimento. Seu papel vai muito além de escolher o melhor medicamento para o tumor.
Na prática, esse profissional realiza o que chamamos de Avaliação Geriátrica Ampla (AGA): uma análise detalhada do estado de saúde do paciente que considera:
- Função física e capacidade de realizar atividades do dia a dia
- Cognição e saúde mental
- Estado nutricional
- Polifarmácia (uso de múltiplos medicamentos)
- Suporte social e familiar
- Presença de outras doenças crônicas (comorbidades)
Com base nessa avaliação, consegue-se identificar a fragilidade do paciente — um conceito central na geriatria que mede a reserva funcional do organismo para suportar situações de estresse, como um tratamento oncológico intenso.
Dois pacientes de 75 anos com o mesmo tipo de câncer podem ter condições de saúde completamente diferentes. A oncogeriatria garante que o tratamento seja adequado para cada um deles — não apenas para a doença, mas para a pessoa como um todo.
Por que a oncogeriatria importa? Os riscos de um cuidado não especializado
Tratar um paciente idoso com câncer da mesma forma que um paciente jovem pode ser perigoso. Os idosos apresentam características fisiológicas específicas que alteram profundamente como o organismo responde ao tratamento:
Metabolismo diferente dos medicamentos
Com o envelhecimento, o funcionamento do fígado e dos rins muda. Isso afeta diretamente a forma como o corpo processa a quimioterapia, as terapias-alvo, os anticorpos monoclonais e a imunoterapia. Doses calculadas sem considerar essas mudanças podem causar toxicidade grave.
Maior risco de toxicidade
Estudos mostram que pacientes idosos com câncer têm risco significativamente maior de desenvolver efeitos colaterais graves durante o tratamento. Quedas, delirium, desnutrição e hospitalização não planejada são complicações frequentes quando o cuidado não é especializado.
Interação medicamentosa
É muito comum que pacientes idosos já façam uso de vários medicamentos para tratar hipertensão, diabetes, doenças cardíacas e outras condições crônicas. Adicionar tratamentos oncológicos sem uma avaliação cuidadosa pode gerar interações sérias.
Impacto na qualidade de vida
Para muitos pacientes idosos, manter a qualidade de vida e a independência é tão importante quanto o controle do câncer. A oncogeriatria ajuda a equilibrar esses objetivos — garantindo tratamentos eficazes sem comprometer desnecessariamente o bem-estar do paciente.
Quando procurar um profissional com atuação em oncogeriatria?
A avaliação oncogerátrica é recomendada para todos os pacientes com 65 anos ou mais que receberam um diagnóstico de câncer. Ela é especialmente importante quando:
- O paciente tem múltiplas doenças crônicas além do câncer
- Há histórico de quedas frequentes ou dificuldade de locomoção
- O paciente toma cinco ou mais medicamentos regularmente
- Existe perda de peso recente não intencional
- A família ou o próprio paciente observam mudanças na memória ou no humor
- O oncologista tem dúvidas sobre a tolerância ao tratamento planejado
A oncogeriatria também desempenha papel fundamental nas decisões sobre cirurgia. Antes de um procedimento cirúrgico de grande porte, a avaliação geriátrica pode prever o risco de complicações e ajudar a preparar o paciente para uma recuperação mais segura.
A oncogeriatria e o cuidado multidisciplinar
Uma das marcas mais importantes da oncogeriatria é o trabalho em equipe. Há uma atuação em estreita colaboração com outros especialistas para garantir um cuidado verdadeiramente integral:
- Oncologistas clínicos e cirúrgicos
- Nutricionistas especializados em oncologia
- Fisioterapeutas e profissionais de reabilitação
- Fonoaudiólogos
- Psicólogos e psiquiatras
- Assistentes sociais
- Equipes de cuidados paliativos
Esse modelo de atenção coordenada reduz hospitalizações, melhora a adesão ao tratamento e, sobretudo, respeita os valores e os objetivos do paciente em cada fase da doença.
O cenário no Brasil e em São Paulo
A oncogeriatria ainda é uma área de atuação relativamente nova no Brasil, mas tem crescido muito nos últimos anos. Grupos como a Oncogeriatria Brasil, o LACOG (Latin American Cooperative Oncology Group) e a própria Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) têm liderado pesquisas e iniciativas para ampliar o acesso a esse cuidado especializado em todo o país.
Em São Paulo, alguns centros de excelência já oferecem atendimento oncogerátrico integrado a programas completos de oncologia — o que representa um avanço significativo para os pacientes da região.
Conclusão: cada paciente merece um cuidado à sua medida
O câncer em idosos é um desafio médico complexo — mas que pode ser enfrentado com muito mais segurança e eficácia quando existe um cuidado especializado. A oncogeriatria não trata apenas o tumor: ela cuida da pessoa inteira, respeitando sua história, sua saúde global e seus objetivos de vida.
Se você ou um familiar recebeu um diagnóstico de câncer após os 65 anos, pergunte ao seu médico sobre a avaliação oncogerátrica. Esse passo pode fazer toda a diferença na qualidade e na segurança do tratamento.
Dra. Ludmila Koch é oncologista no Hospital Israelita Albert Einstein, com atuação em oncogeriatria. É cofundadora da Oncogeriatria Brasil, chair do LACOG Oncogeriatria, coordenadora do comitê de Oncogeriatria da SBOC e membro da SIOG — Sociedade Internacional de Oncogeriatria.
